Foi fugindo de uma briga em Exu, interior de Pernambuco, que Luiz Gonzaga do Nascimento se transformou no Rei do Baião. Em 1930, quando foi pedir para namorar a filha de seu Raimundo Delgado, fazendeiro da região, Luiz ouviu um não e um monte de ofensas. Aperreado, o garoto de 18 anos foi para casa na mesma hora buscar uma faca para furar o velho. "Eu ia tirar sangue daquele cabra!", diria anos depois. Quando o pai soube das intenções do filho, deu-lhe uma surra. "Aí, envergonhado, deixei aquela mulher para trás e ganhei o mundo." E ganhou mesmo. Dezesseis anos depois, quando voltou a Exu já era o Rei do Baião, o sanfoneiro nordestino que o País inteiro conhecia através do rádio. Até sua morte, em 1989, gravou mais de 500 músicas em 56 discos.
Foi parar no Rio de Janeiro em 1939, quando deu baixa no Exército, onde ficou quase dez anos. Só levava na bagagem algumas roupas e a sanfona, claro. Vivia no miserê, tocando valsas, tangos, sambas e boleros para gringos em gafieiras e prostíbulos na Lapa e região do Mangue.
Para a sorte de Gonzagão, conterrâneos seus que estudavam na cidade grande, saudosos da terra natal, pediram que ele tocasse qualquer coisa nordestina. Recusou justificando que já não se lembrava mais dos xotes e xaxados que aprendera com o pai, o legendário sanfoneiro Januário, pois mais de dez anos tinham se passado. Mas foi desafiado e como bom cabra macho não deixou por menos. Os garotos voltaram no dia seguinte e o sanfoneiro surpreendeu tocando belíssimas músicas do tempo em que ainda andava com a sanfona debaixo do braço pelas cidadezinhas do interior de Pernambuco e Ceará. Claro que agradou. Desde então, convencido pelos estudantes de que só faria sucesso quando tocava o que aprendera com o pai, passou a frequentar os programas de calouros do rádio. De Paulo Gracindo, que comandava um deles na Rádio Nacional, ganhou o apelido de "Lua", por causa do rosto redondo e sorridente.
Vaqueiro gaúcho
Demorou a colocar o vozeirão nas músicas. Chegou a ser despedido da Rádio Tamoio, onde trabalhava acompanhando artistas na sanfona, quando tentou cantar com a voz de "taboca rachada", como disseram os radialistas. Em 1941, as músicas Véspera de São João e Vira e mexe estouraram e Luiz Gonzaga começou a se transformar no Rei do Baião, o homem que popularizou os ritmos nordestinos, até então desconhecidos do resto do País.
A idéia de usar vestimentas de vaqueiro ele roubou de um gaúcho, por mais absurdo que seja. Pedro Raimundo era um tocador de acordeon que se apresentava vestido de bombacha e fazia o maior sucesso. Imitou o homem e só muitos anos depois confessaria. O baião virou modismo na década de 40 e Gonzagão passava o tempo viajando pelo interior do Brasil. Compunha músicas sem parar, mas era semi-analfabeto - "nessa vida não preciso saber de nada, só de escrever o nome" - e não fazia letras. Para isso teve alguns parceiros fiéis.
Clássico nordestino
Em 1945, com a gaita que não largava nem para ir ao banheiro, criou o baião e a combinação dos instrumentos ideiais para a execução do ritmo: sanfona, zabumba e triângulo, que viu um menino tocar nas ruas do Recife para vender doces. Com Humberto Teixeira fez Asa Branca (1947), um capítulo à parte na história da música brasileira e que virou até nome de rodovia em Pernambuco. No dia da gravação, o parceiro deu uma de adivinho e soltou: "Te prepara, Luizão, vais ouvir agora um clássico nordestino." Dito e feito.
Em meados dos anos 50, o Rei do Baião caiu no ostracismo e chegou a pensar em desistir de tudo. Mas Gilberto Gil, que desapontava como novo talento da MPB na década seguinte, o apontou como uma de saus maiores influências musicais e reavivou o interesse pela música nordestina. Caetano Veloso gravou Asa Branca em 1971 e fez Gonzagão chorar de emoção numa loja de discos em Fortaleza: "Chorei feio, é a mais linda interpretação que já vi desta música." E lá estava de volta o Rei do Baião, graças aos tropicalistas. No Rio fez o histórico show Luiz Gonzaga volta para curtir no teatro Tereza Rachel, em 1972. Com o filho Gonzaguinha, morto num acidente de carro no interior do Paraná em abril de 1991, fez músicas e gravou discos. Mas o "cabra" estava envelhecendo, os braços já não seguravam mais a sanfona por causa da osteoporose, doença que provoca a descalcificação dos ossos. Mas a voz que um dia disseram ser de "taboca rachada" não tinha preço e ele continuou regravando as pérolas que compôs nos anos 50 e fazendo músicas novas. Nos últimos dez anos de carreira, Dominguinhos tocava sanfona no seu lugar. "Com tanta gente aí melhor que eu, o que é que eu tô fazendo aqui tocando de graça?" Não passou um ano sem lançar um disco novo, mesmo no ostracismo - sempre pela RCA, onde ficou 48 anos, exceto o último de 1989, que lançou pela Copacabana. Anunciou o abandono dos palcos várias vezes durante a carreira de mais de 50 anos, mas nunca teve coragem de fazê-lo.
"Gonzaguetas"
A maior tristeza do velho era não ter forças para segurar a sanfona e precisar andar de muletas que ele chamava de "gonzaguetas". Não passava um dia sem fazer um carinho na mulher, Helena, com quem foi casado por mais de 40 anos. Morreu em agosto de 1989, aos 77 anos, cego de um olho por causa da catarata e maltratado pela doença. Para Exu, levou o progresso; para o Brasil, mostrou a beleza da música nordestina que só os sertanejos conheciam.
VOCÊ SABIA?
Luiz Gonzaga costumava visitar o Congresso Nacional para pedir favores, mas nunca de ordem pessoal. Quando não era recebido, ficava no hall de entrada tocando sanfona para chamar a atenção. Sempre funcionou. Com esta tática, conseguiu levar para Exu um posto de gasolina e a rodovia Asa Branca.
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